Filhoses de enrolar douradas numa travessa de barro sobre um banco de madeira, com uma lareira acesa ao fundo.

Filhoses de Enrolar de Alter do Chão

Há doces que pedem tempo e uma mão paciente. As filhoses de enrolar de Alter do Chão são um deles: tiras finas de massa que se transformam em espirais durante a fritura, antes de receberem uma cobertura de calda de açúcar. A graça está nas voltas soltas, que deixam a massa fritar por dentro e por fora.

Uma recolha ligada ao Natal

A Carta Gastronómica do Alentejo regista esta receita em Alter do Chão, a partir de uma entrevista a Maria José Pires Barreiros da Silva. A recolha associa as filhoses ao Natal e aos Santos. Não levam recheio: distinguem-se pela massa estendida, pelo enrolar durante a fritura em azeite e pela passagem final numa calda de água e açúcar.

Rendimento estimado: 30 a 40 filhoses, consoante o tamanho e a espessura
Tempo aproximado: 2 a 3 horas, incluindo o repouso e a fritura de uma peça de cada vez

Ingredientes

Para a massa

  • 500 g de farinha de trigo com fermento, mais um pouco para estender
  • 2 ovos médios
  • 62 g de banha
  • 62 g de margarina
  • 25 ml de sumo de laranja, coado
  • 15 ml de aguardente
  • 15 ml de azeite
  • Até 30 ml de água, apenas se necessário para unir a massa

Para fritar

  • Azeite suficiente para uma altura de 3 a 4 cm num tacho alto de 20 a 22 cm de diâmetro, aproximadamente 1 a 1,5 litros

Para a calda

  • 300 g de açúcar
  • 150 ml de água

Tenha à mão um rolo, um cortador de massa, um tacho alto e estável, um garfo metálico de cabo comprido, uma pinça comprida e uma escumadeira. Um termómetro de cozinha ajuda a controlar a fritura. Não use utensílios de plástico nem aproxime as mãos do azeite quente.

Preparação passo a passo

  1. Prepare e una a massa.
    Derreta a banha e a margarina em lume baixo e deixe amornar. Ponha a farinha numa tigela larga, abra uma cavidade e junte os ovos, as gorduras mornas, o sumo de laranja, a aguardente e os 15 ml de azeite. Misture primeiro com uma colher e depois com as mãos. Se ficar farinha seca que não se incorpora, junte água, uma colher de chá de cada vez, usando apenas a quantidade necessária. Deve obter uma massa unida e maleável, não pegajosa.
  2. Amasse e deixe repousar.
    Amasse durante cerca de 5 a 8 minutos, até a massa ficar mais lisa e conseguir dobrá-la sem se desfazer. Tape e deixe repousar 20 minutos à temperatura ambiente. Este repouso facilita a tarefa de estender; não se pretende uma levedação com fermento de padeiro.
  3. Estenda e corte as tiras.
    Trabalhe pequenas porções de cada vez e mantenha a restante massa tapada. Estenda sobre a bancada ligeiramente enfarinhada até cerca de 2 mm de espessura. Corte tiras com aproximadamente 4 cm de largura e 20 a 25 cm de comprimento. Sacuda o excesso de farinha. As dimensões são orientadoras: comece com uma tira mais curta para praticar.
  4. Aqueça o azeite com segurança.
    Use um tacho alto e estável, sem o encher acima de um terço da sua capacidade. Aqueça o azeite em lume médio, idealmente entre 165 e 175 °C, sem deixar fumar. Teste com um pequeno recorte de massa: deve borbulhar e dourar gradualmente, não escurecer de imediato. Tenha os utensílios secos e a zona de trabalho desimpedida.
  5. Enrole durante a fritura.
    Prenda a ponta de uma tira nos dentes do garfo de cabo comprido e segure a outra ponta com a pinça. Introduza apenas a primeira ponta no azeite. Rode devagar o garfo enquanto vai baixando o resto da tira com a pinça, formando uma espiral larga. Mantenha pequenos espaços entre as voltas: não aperte a massa nem deixe as camadas colarem umas às outras. No fim, encoste apenas a ponta exterior para fechar a peça. Trabalhe uma filhós de cada vez e mantenha as mãos afastadas do tacho; se não conseguir controlar a tira em segurança, interrompa e pratique primeiro o movimento com os utensílios e massa em frio.
  6. Doure e escorra.
    Quando a espiral estiver firme, solte-a do garfo com ajuda da pinça. Vire com cuidado e deixe dourar dos dois lados, durante cerca de 2 a 3 minutos no total, ajustando ao tamanho e àtemperatura. Retire com a escumadeira e deixe escorrer sobre papel absorvente. Abra a primeira peça depois de arrefecer um pouco: o interior deve estar cozido, sem massa húmida ou crua. Se o exterior escurecer antes de o interior cozer, baixe ligeiramente o lume e estenda as tiras seguintes mais finas.
  7. Faça uma calda leve.
    Depois da fritura, ponha a água e o açúcar num tacho limpo. Aqueça, mexendo até dissolver o açúcar. Quando ferver, deixe fervilhar suavemente durante cerca de 2 a 3 minutos, sem continuar a mexer. Para esta adaptação pretende-se uma calda ainda fluida que cubra ligeiramente as filhoses, não um caramelo nem uma cobertura espessa. Retire do lume antes de começar a ganhar cor.
  8. Passe pela calda e sirva.
    Com a pinça, passe cada filhós rapidamente pela calda morna, deixe escorrer o excesso e coloque numa grelha sobre uma travessa. Não as deixe de molho, para preservar a textura. Se a calda engrossar demasiado, junte uma colher de sopa de água quente e aqueça suavemente. Deixe arrefecer antes de servir.

O segredo está nas voltas soltas

O gesto de enrolar é a parte mais exigente. A fonte insiste em que as filhoses não se devem pegar, juntando apenas a ponta. Por isso, faça uma espiral aberta e trabalhe sem pressa. Massa fina, temperatura estável e espaço entre as voltas ajudam a evitar um exterior demasiado escuro com um centro cru.

Vinho e azeite

Experimente um pequeno copo de Vidigueira Licoroso Branco DOC, servido fresco. O perfil doce e aveludado, com notas de fruta tropical madura, acompanha esta proposta de doçaria alentejana.

Para preparar a receita, o Azeite EA Virgem Extra de 3 L é uma opção para o azeite da massa e para a fritura. A quantidade usada no tacho depende das suas dimensões e não é toda absorvida pelas filhoses.

Preparação antecipada

Prepare as filhoses no próprio dia para preservar melhor a textura. Deixe arrefecer e escorrer a calda antes de as colocar na travessa; não empilhe as peças enquanto a cobertura estiver húmida. Se sobrar, guarde num recipiente fechado, em local fresco e seco, e consuma no dia seguinte para melhor textura. A calda tende a amolecer a massa com o tempo.

Mais doçaria do Alentejo

Para descobrir outra receita da região, conheça a nossa Barriga de Freira à Moda do Alentejo, de Mértola.

Fonte e adaptações

Carta Gastronómica do Alentejo (2013), p. 95, «Filhoses de Enrolar», Alter do Chão. Entrevista a Maria José Pires Barreiros da Silva, por Teresa Simão, Leader-Sor, em 2012.

Receita recolhida no Alentejo, adaptada pela Herdade do Estacal para o blogue «À Mesa com o Alentejo». Reduzimos a base para 500 g de farinha e arredondámos as gorduras para 62 g cada. Mantivemos os ovos, a banha, a margarina, a farinha com fermento, a fritura em azeite e o enrolar durante a fritura. Fixámos medidas orientadoras de aguardente, sumo de laranja e azeite, sem conversão exata das medidas da recolha, e usámos o azeite da massa sem fritura prévia. A água opcional, o repouso, as dimensões das tiras, a temperatura, os tempos e as proporções da calda são orientações desta adaptação. A harmonização é uma sugestão nossa.

Imagem ilustrativa gerada para este artigo.

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